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sexta-feira, 16 de maio de 2008

REVOLUÇÃO ACREANA

Estátua de Chico Mendes.


Oca de índio- no Parque Chico Mendes


O índio, nativo da região. www.nhariolincoln.jor.br/


Porto Acre nas filmagens da minissérie.

Revolução Acreana: um elogio ao capital

Eduardo de Araújo Carneiro - Publicado em 05.02.2007

"Capital é uma forma especifica de relação social, na qual os burgueses empregam o trabalho dos despossuídos dos meios de produção para produzir mais-valia... é a contínua expansão do valor através do processo de produção e circulação de mercadorias" Paul Singer



Acreana. A historiografia oficial muito já fez para se acreditar que a origem dessa guerra está no sentimento antiimperialista de Plácido de Castro e no patriotismo daqueles que fizeram a “revolução pelo direito de serem cidadãos de um país que os negava”. Ao contrário desse raciocínio que forja um passado heróico, expondo em primeiro plano o idealismo dos combatentes, numa perspectiva econômica, pretendemos tornar a “Revolução” mais transparente aos olhos dos leigos, ressaltando a latente cobiça dos “coronéis de barranco”. Porquanto “Não é a consciência dos homens que determina a realidade; ao contrário, é a realidade social que determina sua consciência” Marx. A “guerra do Acre” fez parte de uma conjuntura internacional em que a busca pelo lucro foi levada ao extremo através da política imperialista dos países “centrais”. A conquista territorial e o domínio econômico sobre outras nações eram vitais para a sobrevivência das indústrias; por meio do controle das fontes de matérias-primas, pretendia-se vencer a “encarniçada” concorrência. No final do século XIX, o Acre torna-se um dos principais alvos do capital, por ter a maior fonte de látex, elemento essencial à indústria pneumática. O capital chega ao Acre em seu modelo selvagem e constrói toda a engrenagem do sistema de aviamento. Em busca de inversão lucrativa rompe as “veias acreanas” e, indiferente às danosas conseqüências sociais, suga o máximo de seu látex. Para obter o excedente, o capital não tem ética – invade as terras bolivianas, destrói a floresta, extermina os índios, submete as pessoas à semi-escravidão, encobre a corrupção, apóia a sonegação fiscal, promove conflitos, produz o subdesenvolvimento e até patrocina historiografias capazes de justificar suas ações. Mas não se pode esquecer que havia quem, no âmbito local, se enriquecia com tudo isso: os seringalistas e os governadores do Amazonas e do Pará.Inegavelmente o Acre pertencia à Bolívia. Na verdade essas terras nunca se configuraram como brasileiras, tratados e acordos não faltam para comprovar esta afirmação, desde a “Bula Papal Intercoetera” assinada em 1493, até a definição da linha “Cunha-Gomes” em 1898 (não considerando o ‘Uti Possidetis’). No entanto, seringalistas brasileiros financiados pelas casas aviadoras, trouxeram milhares de nordestinos para essa área, a fim de explorá-los até produzirem a derradeira mais-valia absoluta. Os seringueiros “trabalhavam para se escravizar” enquanto garantia o lucro dos “coronéis de barranco” e os impostos dos governadores. O sistema funcionou “harmoniosamente” até a Bolívia exigir “as terras não descobertas” de volta. A Bolívia soube da invasão de suas terras em 1894, pelo coronel boliviano Manuel Pando. A partir de então, começaram os conflitos que culminariam na “Revolução Acreana”. O governo do Brasil tudo fez para deixar a região com o verdadeiro titular e, após alguns acordos diplomáticos, em janeiro de 1899 a Bolívia constrói um posto aduaneiro em Puerto Alonso, lugar estratégico por onde trafegavam boa parte das embarcações. A aduana boliviana cobrava impostos de até 40% em cima do valor do produto. Não havendo como repassar esse aumento às casas exportadoras, uma vez que estas já preestabeleciam os preços, os seringalistas tiveram que arcar com os prejuízos e os governadores com a diminuição drástica da arrecadação tributária. Eis aí o verdadeiro elemento causador da Guerra do Acre: $ DINHEIRO $. Não aceitando a situação, o governador do amazonas aliado aos seringalistas começaram a contratar líderes que organizassem revoltas contra os bolivianos: em maio de 1899 o jornalista José de Carvalhos; em julho de 1899 o espanhol Galvez; em dezembro de 1900 os poetas da “expedição Floriano Peixoto”. Não resolvendo o litígio, essas revoltas só pioraram a situação, já que o governo boliviano decide buscar ajuda dos ingleses e norte-americanos para “colonizar” o Acre. Surge o conhecido “Bolivian Syndicate”. Contra esse consórcio levanta-se nada menos que Plácido de Castro, o herói dos desavisados, que aceita participar da “epopéia acreana” por uma quantia de 250 mil contos de réis.A guerra foi, do início ao fim, um elogio ao capital, pela “bela” coreografia apresentada aos dois países, pela sedução com a qual os cativou ao engodo. O que estava no centro da questão não era a luta contra o imperialismo internacional, a região já estava dominada pelo capital internacional por meio do sistema de aviamento; a “Bolivian Syndicate” seria apenas um acesso “vip” ao “leite amazônico”. Na verdade, bolivianos e “brasileiros do Acre” entraram em guerra, para saber com quem ficaria as “migalhas” dos gigantescos lucros que fluíam da “havea brasiliensis” para a Europa. “Todos os movimentos armados ou diplomáticos pela posse do Acre... foram motivados pela riqueza” Prof. Dr.Carlos Alberto, autor do livro Acre: novos tempos, novas abordagens.Por fim, as “revoluções acreanas” não se fazem só de ideologia, subjacentes a elas existem as profundas ambições de seus líderes e da classe que representam. Comprovadamente a vida dos seringueiros em nada mudou, continuaram “trabalhando para se escravizarem”, as “revoluções” sempre se negam a ir ao encontro dos “pequeninos”. Em contrapartida, são benévolas com seus líderes. Plácido de Castro tornou-se um seringalista rico, dono de terras no Acre, Amazonas e Bolívia; foi governador do Acre meridional e depois prefeito do Alto Acre. O dia 06 de agosto já se aproxima, novamente seremos lembrados de todos os feitos heróicos e patrióticos de nosso passado. Comemoremos!!! Afinal “temos um herói para dar a conhecer a todos os brasileiros”

(citação extraída da apresentação do livro: O Estado Independente do Acre, de Genesco Castro reeditado em 2002).

Eduardo de Araújo Carneiro é licenciado em História,

concludente do curso de Economia e

acadêmico do Mestrado em Letras pela UFAC e

edita o blog História do Acre - Vale a pena ver: http:/eduardoeginacarli.blogspot.com/

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